Aguenta coração#2

Obrigada a todos pela preocupação de hoje!

Aqui fica a explicação para o palpitar do meu coração.

Quando o D. nasceu surgiram imensas complicações que o levaram à incubadora, a um diagnóstico imediato de uma operação que terá que acontecer mais tarde (da qual falarei mais à frente) e de uma surdez que nos apanhou de surpresa.
Temos antecedentes familiares muito próximos e essa razão levou-me quase à loucura quando o D. chumbou no 1º exame auditivo ainda no hospital.
Do J. não tínhamos feito. Optámos e devido aos antecedentes, por fazer apenas 25 dias depois do nascimento e assim ter um resultado mais fiável. E aconteceu. O J. passou à primeira e com distinção.
Do D. nem pensámos muito nisso. Fizemos o exame logo, confiantes que seria igual. Quando chumbou a primeira vez ao 3º dia de vida, desmoronei completamente. Cai como um baralhado de cartas ao vento.
Sou uma pessoa positiva por natureza, consigo ver o lado bom das coisas más e cedo me mentalizei que era o primeiro exame, e que tinha sido uma cesariana difícil e que por vezes estas coisas acontecem. 
Com 1 mês novo exame, novo chumbo nos dois ouvidos e somos imediatamente encaminhados para uma especialista.

Nestes intervalos de tempo, fiz testes, fiz coisas de mãe, bati com portas, deixei cair coisas ao chão... sabia que me ouvia, tinha a certeza absoluta que me ouvia e que reagia à minha voz como se me conhecesse desde sempre, mas no fundo tinha um medo atroz que fosse apenas o meu coração a falar e que ele reagia sim à vibração da minha voz, que olhava para mim quando eu falava para ele porque sentia a vibração do meu corpo.
Li muito. Lemos muito. Todos os estudos que havia para ler.
Ponderámos tudo... ir aos Estados Unidos, ir à China se fosse preciso só para ouvir outra opinião, ir fazer o exame no hospital ao lado.
"Surdez profunda bilateral" era o que mais se ouvia nesta fase e o que ecoava na minha cabeça 24 sob 24 horas.
Pediatra, Otorrino, Especialistas em surdez infantil... fomos a tudo. Ouvimos tudo o que podíamos para acabar com aquela angústia. A dele pelo reboliço, e nossa pelas razões óbvias.

Os primeiros meses de vida do D. passámo-lo entre a nossa casa e a Cuf, entre exames e mais exames, entre o cirurgião e o pediatra, entre a incerteza e o desespero entre e a esperança que raramente perdi e a dificuldade em lidar com a possibilidade.
Novo exame aos 3 meses, novo chumbo.
Repetição aos 6 meses, novo chumbo.
O D. estava na escola, ninguém dava por nada, ele reagia. Eu perguntava e ninguém se apercebia.
Com 6 meses já se sentava e virava a cabeça em direcção ao som, ficava histérico se o J. falava... mas o chumbo bilateral continuava lá.

Aos 8 meses e com uma certeza de mãe que o meu filho não era surdo profundo, repetimos o exame.
Eu estava inexplicavelmente tranquila nesse dia. Era como se alguma coisa, alguém tivesse sussurrado ao meu ouvido que tudo ia correr bem desta vez... não tenho uma explicação lógica.
O exame começou e eu vi imediatamente que havia reacção, olhei para o monitor e vi a cara de alento da técnica.
Naquele momento não chorei. Ele estava ao meu colo. Comovi-me apenas, apertei-o contra o meu peito e mantive-me a olhar para ele até terminar o exame.
Quando terminou sussurrei-lhe de mansinho "obrigada por me teres dado força todos os segundos".
Aquele momento era a prova que eu precisava para acalmar o meu coração, contudo o exame manteve-se negativo por não ter atingido os patamares mínimos para ser considerado "apto".

Resolvemos assim e com todos os exames em mãos procurar um especialista conceituado, alguém com mais experiência em surdez infantil e que de alguma forma nos ajudasse a perceber se iriamos ter que partir para um implante coclear, ir ao encontro da opinião da Otorrina que seguia o D. anteriormente que era a de colocar um implante externo, se iriamos esperar e repetir o exame mais tarde ou se pura e simplesmente não havia nada a fazer.
Nós tínhamos a sorte (ou azar dependendo do ponto de vista) de ter 2 casos de surdez muito próximos e de sabermos que esta possibilidade existia nas nossas vidas, que tínhamos 25% de probabilidade genética de ter um filho surdo.
Na primeira consulta do D. em Março (9 meses na altura) com o médico extraordinário que o acompanha desde então, o mesmo tranquilizou-nos de imediato dizendo "este bebé não é surdo nem aqui nem em lado nenhum, mas vamos fazer novos exames".
A partir daqui e já mais descansados começámos lentamente a relaxar, a desligar o botão e a aliviar a pressão.
Voltámos em Maio à consulta e decidimos conjuntamente apenas repetir os exames agora em Setembro.
O D. tem 15 meses, já anda, já fala, já se manifesta por tudo e por nada, se lhe falo de surdina ele ri-se, se o chamo da cozinha para a sala ele vem.

Hoje repetimos e não conseguimos concluir o exame, portanto dentro de dias, vamos lá novamente.
Mas o exame está positivo. Apenas necessitamos do "papel" para respirar melhor.

Com esta história que vos conto hoje, aprendi que não acontecesse só aos outros. Que num dia temos o céu e no outro ele cai-nos em cima e nos rouba os sonhos (temporariamente, mas rouba).
Que senti na pele a dor que os pais sentem quando algo foge ao controlo, quando a felicidade e a saúde dos nosso filhos é posta em "xeque", quando desejamos ser nós por eles para que não sofram, para que não sintam.
Durante estes 15 meses, rezei, chorei, reagi, fingi estar bem, desmoronei, perdi a esperança, ganhei-a de volta, pedi ajuda, zanguei-me com Deus, reconciliei-me com Ele, sorri, fui feliz, sonhei, pensei, (pensei tanto!) imaginei milhares de vezes como seria se fosse, imaginei milhares de vezes como seria se não fosse.
E não é. Não é surdo profundo, mas mesmo que fosse seria igualmente feliz.

Aos meus pais, às minhas irmãs emprestadas a C. e a M. (aquelas que valem por 10!), à madrinha S., ao padrinho L. e a todos os que nos acompanharam dia-a-dia neste processo, obrigada!

A todos os que a cada exame negativo nos ajudaram a ultrapassar a frustração, obrigada!

Ao J. que me disse carinhosamente desde o primeiro dia:" Mãe o Micas ouve-me, tenho a certeza!" Obrigada filho querido!
Ao J. que em todos os dias de exame me presenteou com um desenho e me disse palavras doces, obrigada!
(Todos os desenhos do J. destes dias sem fim, estão alinhados em quadros coloridos por cima da cama do D. para que um dia, o próprio, perceba que isto nos envolveu a todos).

Ao N. que vi desmoronar uma única vez em 15 meses, obrigada por nunca me teres deixado ir com a emoção.

O coração de mãe nunca me enganou, mas sinto-me tremendamente aliviada por este tormento estar, finalmente, a chegar ao fim.
 
Um beijo
M.

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