O MAR

Ontem fomos à praia e o Duarte levou os aparelhos (o que não costuma acontecer). 
Quando lhe disse para tirar, ele prontamente o fez, mas 10 segundos depois pediu para colocar novamente. 

 Estranhei e perguntei: 
- não queres tirar os aparelhos? Não achas melhor tirar para brincares à vontade? 

 Respondeu baixinho: 
- mãe, quero pôr porque quero ouvir o mar. Eu nunca oiço o mar e agora consigo ouvir. 

 Ficou de aparelhos a contemplar o som... 
 Aquilo deu-me um nó na garganta... Eles afastaram-se e fiquei a observá-lo. 
Como é que eu não me lembro disto naturalmente? Como é que a condição dele se tornou tão normal que o privo (sem intenção) de um som tão bom e tão apaziguador como o som do mar? 
Esta normalidade que conferimos à adversidade do Duarte, por vezes, faz-nos esquecer destes grandes pormenores. Fiquei ali a ouvir o mar com os ouvidos bem focados no som e a perceber o quanto deve ser difícil viver sem estas emoções tão simples que todos temos e nem damos valor. 

 - Micas, estás a gostar? 
 - sim mãe, estou! Estou a adorar ouvir o mar! 

 E vais ouvir muitas vezes, meu amor. A mãe promete que não se volta a esquecer que o especial e mais bonito está nas coisas mais simples. 

 Um beijo no coração
 Rita

Texto escrito e partilhado no facebook e instagram (Memórias da M) no dia 19 de Abril de 2021

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